O Estado do Futebol Brasileiro

Agora que voltei ao Brasil, nada mais justo do que me atualizar sobre como anda o mercado de futebol no país.

Faço em parte motivado pela vontade genuína de contribuir com o desenvolvimento da indústria local e, em outra parte, por dias atrás ter lido uma publicação de uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo dizendo que o futebol brasileiro apresentava “tendências encorajadoras e resultados financeiros positivos“.

Fiquei com uma pulga atrás da orelha e resolvi checar. Afinal, a quantas anda a situação financeira do futebol brasileiro? Ele realmente está apresentando resultados positivos? A perspectiva é boa assim mesmo? Estive eu tão por fora assim?

Para responder essas perguntas, a primeira coisa que pesquisei foi a quantidade de dinheiro que os clubes da Série A tem no banco. Afinal, o valor em caixa é uma das poucas coisas em um balanço financeiro que não são subjetivas. Além disso, salvo algumas exceções, organizações com bastante dinheiro no banco em geral são saudáveis, e organizações sem dinheiro no banco não são.

Pra entender a real situação financeira de um clube de futebol, então, é melhor primeiro ver quanto dinheiro ele tem na mão.

Os balanços dos 20 clubes da Série A desse ano dão um número: no dia 01 de Janeiro de 2018, os principais clubes do Brasil tinham um total de R$108.431.000,00 em caixa. Confesso que é mais do que eu imaginava.

O problema é que apesar de parecer bastante, esse valor é quase 15% menor do que no ano anterior, quando os clubes tinham cerca de R$125 milhões. Ou seja, em um ano, os clubes de futebol da Série A do Brasil perderam R$18 milhões do dinheiro que tinham na conta:

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Mas, independente se o valor desceu ou subiu, como saber se R$ 108 milhões é muito ou pouco?

Pra ter uma ideia melhor, é preciso comparar. A Globo, por exemplo, tinha quase R$ 3 bilhões em caixa no dia 01 de Janeiro de 2018, 27 vezes mais do que os 20 clubes somados.

Mas, comparar com a Globo talvez seja não sirva para muita coisa, já que ela não faz parte do mesmo mercado. A CBF, por sua vez, tinha R$361 milhões no banco, mais de três vezes do que todos os clubes da Série A juntos:

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A CBF, porém, não é clube, e o business e a importância do caixa em uma federação é bastante diferente de um clube. Talvez o melhor seja comparar o caixa dos clubes do Brasil com outros clubes do mundo.

Pra ter uma ideia mais abrangente, selecionei dois gigantes – Manchester United e Real Madrid – e outros três clubes médios da Europa: Porto, Celtic e Villarreal. E, surpresa, cada um deles possui mais dinheiro em caixa do que todos os clubes do futebol brasileiro da Série A juntos.

Mais do que isso, o Celtic tem praticamente o dobro, o Real Madrid tem 7,5 vezes mais e o Manchester United tem, sozinho, mais de 11 vezes o valor somado de todos os clubes de futebol do Brasil no banco. Lembre-se do gráfico a seguir toda vez que um dirigente brasileiro der uma entrevista anunciando que o seu respectivo clube está preparado para competir financeiramente com os clubes europeus:

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Essas comparações por si já dão uma noção de como andam as finanças dos clubes brasileiros. Mas não são suficientes. É importante colocar o caixa disponível para o clube em contexto. Afinal, os clubes brasileiros tem menos dinheiro guardado, mas também gastam bem menos que os europeus.

Mas, se os clubes do Brasil estão “apresentando resultados positivos”, é de se imaginar que esse dinheiro disponível seria suficiente para arcar com os gastos mensais e administrar a operação do dia-a-dia sem maiores problemas. Então, considerando que o maior custo de um clube tende a ser com salários de atletas, como fica o caixa dos clubes da Série A comparado à respectiva folha mensal? Mais uma vez, não muito bem:

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No dia 01 de Janeiro de 2018, só sete dos 20 clubes da Série A tinham mais dinheiro no banco do que o valor médio de uma folha salarial mensal de 2017. Desses sete, só a Chapecoense e o Paraná Clube conseguiriam pagar mais de dois meses de salário. No total, os clubes de futebol da Série A tinham em caixa R$ 44 milhões a menos do que o necessário para pagar um mês de salário para seus jogadores.

É complicado. Para se ter uma idéia melhor do quanto dinheiro que falta para os clubes do Brasil, é só comparar a diferença do Ativo Circulante, o valor que eles tem disponível no ano, com o Passivo Circulante, o valor das obrigações que eles tem que pagar nesse mesmo ano, para descobrir o tamanho do buraco no capital de giro:

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Como se pode ver, no dia 01 de Janeiro de 2018, os clubes de futebol da Série A do Brasil tinham que achar mais de R$2 bilhões para conseguir fechar o ano no zero a zero sem precisar vender jogador, adiantar dinheiro, aumentar a dívida, vender imóveis ou sonegar impostos. Não é uma tarefa fácil. Tampouco indica que o futebol por aqui vai bem. Até porque esse furo é 11% maior do que no ano interior.

A única justificativa pro argumento que o futebol brasileiro apresenta “tendências encorajadoras e resultados financeiros positivos” é o fato bastante explorado de que os clubes vem obtendo recordes de receitas e alcançando lucro operacional. Mas, se isso está mesmo acontecendo e, ainda assim, o caixa está diminuindo e o buraco no capital de giro está aumentando, pra onde está indo esse dinheiro que os clubes estão ganhando?

Exatamente pra onde você imagina:

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No ano passado, os 20 clubes da Série A conseguiram gerar juntos quase R$1,2 bilhão. O problema é que eles pegaram esse dinheiro e usaram quase tudo como investimento, principalmente em direitos de jogadores. O pouco que sobrou, usaram pra pagar uma parte das crescentes dívidas, o que resultou no furo de caixa de R$ 18 milhões.

O lado bom é que, com tanto investimento, o valor das propriedades dos clubes aumentou um pouco, cerca de 2%. Como as dívidas e outras obrigações aumentaram menos, o Patrimônio Líquido – ou o resultado de tudo o que os clubes possuem menos o que eles devem, cresceu. Se em 2016 os clubes deviam R$ 54 milhões a mais do que tudo o que eles tinham, em 2017 eles passaram a dever R$ 21 milhões além daquilo que podem pagar:

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Ou seja, se os 20 clubes da Série A do Brasil venderem tudo o que eles tem para tentar pagar a dívida existente, vai faltar ainda R$ 1 milhão pra cada um. Se considerar que cada um desses clubes tem em média uns 50.000 sócios, quer dizer que cada sócio de um dos clubes da Série A do Brasil deve R$ 20 pra alguém.

Outro problema é que boa parte do valor que os clubes possuem é relacionado ao estádio, centro de treinamento e jogadores, que tem valores contábeis que tendem a ser bem diferentes dos valores reais de mercado. Afinal, quem compraria um estádio pra 40 mil pessoas?

Como boa parte do dinheiro dos clubes está presa nessas propriedades, isso os impede de gerar a liquidez necessária para conseguir administrar o caixa e, em última análise, ter qualquer forma de gerenciamento ou planejamento minimamente sensata:

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A falta de caixa, dessa forma, não é nenhuma surpresa. Muito menos a bagunça financeira do futebol brasileiro. Longe disso.

Se você só olhar as receitas e o superávit, realmente chegará à conclusão que os clubes de futebol do país melhoraram as finanças em relação a 2016. Mas, indo um pouco mais a fundo, dá pra ver que os clubes fecharam 2017 com menos dinheiro na mão do que no ano anterior.

E esse não é um resultado positivo e, muito menos, uma tendência encorajadora. Muito pelo contrário. Apesar do avanço, os clubes continuam a dever muito mais do que possuem. E nada indica que 2018 vai mudar muita coisa.

A boa notícia é que tem como transformar esse cenário. Não é fácil e muito menos rápido, mas existem evidências claras de que é possível melhorar significativamente a atual situação financeira do futebol brasileiro, a começar por colocar em prática um planejamento mais sensato na aquisição de direitos de jogadores.

Só que, para isso, o primeiro passo é reconhecer o tamanho do problema de verdade. E, como você pode ver, ele não é pequeno. Tem muito o que ser feito.

É bom estar de volta.

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