Sobre Clubes Empresas

Há muito tempo que acreditamos no Brasil que a solução para o futebol passa pela transformação de clubes em empresas. Como se todas as empresas do Brasil fossem excelentes exemplos de gestão financeira e operacional. Pare e pense.

Mas, antes de qualquer análise, é importante entender um pouco sobre como surgiu tudo isso.

A ideia de clubes de futebol se transformando de associações sem fins lucrativos em empresas com capital fechado começou na Inglaterra no início do século XX, quando os sócios do clubes perceberam que não seria uma boa ideia comprometer o patrimônio pessoal como garantia para os empréstimos necessários para financiar estádios e aquisições de jogadores.

Como o futebol é uma operação que tende a gerar déficit, é melhor deixar que as perdas comprometam o patrimônio da própria empresa e transferir o risco para o credor do que arriscar as próprias contas. Em caso de falência, nenhum sócio perderia a própria casa por isso.

E foi isso que aconteceu. Praticamente todos os clubes ingleses já estiveram próximo de decretar falência. Muitos de fato decretaram e fecharam as portas. Outros, como o Manchester United, foram salvos da extinção por torcedores milionários. Várias vezes. A situação financeira do futebol inglês nunca foi das melhores, clubes sendo empresas ou não.

A criação da Premier League e a listagem do United na Bolsa no início da década de 90 deu a impressão de que esse era um modelo a ser seguido. Assustados com os crescentes valores das dívidas e encantados com os novos estádios ingleses, governos europeus como o Francês, o Espanhol e o Português, forçaram os clubes a saírem do modelo associativo para se transformarem em sociedades anônimas. Assim, a esperança é que o buraco negro financeiro do futebol diminuísse.

Ao mesmo tempo, no Brasil os clubes penavam para tentar se organizar em um mercado consumidor que se abria e sem o financiamento direto do governo. Veio a Lei Zico, que copiou a ideia de que a conversão dos clubes em sociedades fechadas seria a solução para os problemas.

Em nenhum momento, o governo, a imprensa ou qualquer outra pessoa que defendia o clube-empresa trazia uma justificativa consistente que não fosse a lógica rasa de que se associações não tem objetivos financeiros e empresas tem, então para que o clube não tenha problema financeiro ele precisa se tornar empresa.

Como os dirigentes de clubes da época foram bastante contrários a ideia, deu ainda mais a impressão de que essa era de fato a grande solução. Afinal, se o cartola não quer, é porque faz bem para o futebol.

Nesse momento, mais de 20 anos atrás, criou-se a ideia no imaginário coletivo de que a solução para os problemas organizacionais e financeiros do futebol brasileiro é uma só: transformar os clubes em empresas. E, a partir de então, o país parou de observar o que acontecia na Europa.

Não viu, por exemplo, que depois que os clubes viraram empresas na Espanha, a dívida deles aumentou exponencialmente, subindo de 1 bilhão de Euros em 2000 para 3,5 bilhões em 2015. Que o Valencia, um dos maiores clubes-empresa do país, deve mais de 1 bilhão de Reais. Que o Manchester United deve o dobro. Que Parma, Napoli, Fiorentina, Málaga, Leeds United, Portsmouth, Crystal Palace, Charlton, Leicester City, Coventry City, Glasgow Rangers e Borussia Dortmund foram alguns dos muitos clubes europeus que decretaram ou estiveram muito próximos de decretar falência ao longo dos últimos anos. E todos são empresas.

E ignorou o fato de que dos 03 clubes que mais geram receita no mundo, 02 — Real Madrid e Barcelona — são associações esportivas sem fins lucrativos, e que o quarto no ranking, o Bayern, tem 87% das ações controladas por uma associação composta por 150 mil sócios, tal qual um clube brasileiro. Os outros clubes no topo da lista são empresas em que os donos emprestam dinheiro para financiar suas atividades, mas não assumem a dívida para si. Roman Abramovich, por exemplo, emprestou mais de R$ 5 bilhões para o Chelsea desde que comprou o clube em 2003.

Depois de penar muito com as finanças, os clubes Europeus passam por um certo momento de estabilidade, pelo menos para os clubes grandes. Mas isso não se deve ao modelo societário. Empresas e associações sem fins lucrativos passam pelo mesmo processo. O que aconteceu foi um maior regulamentação, controle e fiscalização da União Europeia e da UEFA nos gastos dos clubes. E só isso.

Ao fechar os olhos e nos atermos à ideia do clube empresa como solução, nós ignoramos aquilo que realmente importa: regulamentação, controle e fiscalização, coisa que pode acontecer com qualquer organização, seja ela privada, pública ou associativa. O que importa, no fundo, é quem está no controle dela.

Vai por mim. Um presidente ruim pode ser um dono ainda pior.

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